Outro Espectro

Encontro de blogueiras com a senadora Gleisi

Posted in Uncategorized by Carine Roos on março 21, 2011

Logo mais, a partir das 18h30, blogueiras irão bater um papo com a senadora eleita pelo Paraná, Gleisi Hoffman do PT, em seu gabinete. Estarei participando do bate-papo com a senadora e compartilho com vocês as perguntas que farei a ela:

– O que a senhora pensa sobre a criação de uma secretaria ou assessoria de gênero nos ministérios que se atente para esse recorte na planificação de políticas públicas, tendo em vista que o diálogo interministerial hoje, nesse aspecto, é incipiente. Temos como exemplo a Espanha, em que toda a política pública realizada nesse país apresenta um viés para as questões de gênero. Dessa forma, teríamos um discurso de gênero de fato institucionalizado.

– Tendo em vista a atuação da senadora numa maior efetividade na aplicação da lei Maria da Penha, inclusive nos casos em que o agressor contra a mulher apresenta pena inferior a um ano, gostaria de perguntar a senadora se o Congresso e as leis vigentes hoje no Brasil não estão focadas essencialmente na lei maria da penha e esquecendo do recorte de gênero voltado a crianças e adolescentes, uma vez que uma grande quantidade de denúncias de violência recebidas pela Secretaria Especial de Direitos Humanos está vinculada também a agressões inta-familiares, entre crianças e adolescentes.

– O que o legislativo poderia contribuir com a ampliação da verba orçamentária de secretarias como a Seppir, a SEDH, a SPM, tendo em vista que essas secretarias promovem políticas públicas fundamentais em nível federal, fortalecendo essas secretarias para além da esfera legal.

– Queria saber o posicionamento da senadora frente as correntes opostas que atuam no Congresso, de um lado projetos de lei elaborados como o da Associação Brasileira de Gays Lésbicas Travestis e Transexuais (AGLBT) juntamente com movimentos feministas e progressistas da sociedade para criminalizar a homofobia no Brasil, ao mesmo tempo parlamentares, em sua maioria da bancada evangélica, que se posicionam contra gays e minorias.

Quem tiver interesse em fazer perguntas a senadora, deixe um comentário logo abaixo. Na medida do possível, repassarei as perguntas para a senadora. No mais, tentaremos transmitir o bate-papo também via redes sociais.

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A relevância dos cidadãos repórteres ao denunciarem opressões em regimes autoritários

Posted in Uncategorized by Carine Roos on fevereiro 10, 2011

Na tentativa de seguir a promessa de escrever mais posts nesse blog e fazer artigos que possam posteriormente serem aceitos em revistas acadêmicas, resolvi dar a minha contribuição inspirada na cobertura que o Global Voices vem fazendo sobre o ocorrido no Egito. O material do Global Voices nesse acontecimento tem sido realizado essencialmente por cidadãos repórteres, mostrando para nós os bastidores da revolução, em que a própria mídia local está sob censura ou encobrindo fatos cruciais sobre a realidade desse país. Nesse sentido, as vozes desses cidadãos ao relatarem e compartilharem informações tem feito o papel da imprensa ao denunciarem as violências sofridas por esses indivíduos. Quem quiser citar a autoria fique a vontade – Aqui o artigo completo

Segue um resumo explicativo:

Objetivo do presente artigo é mostrar a relevância dos cidadãos repórteres em visibilizar, a partir da Internet, a realidade política, social e cultural de seus países que ao estarem submetidos por regimes autoritários ou democracias deficitárias, especialmente em períodos de convulsão, têm os seus direitos básicos negados como a liberdade de expressão e de manifestação em que a própria imprensa ou compactua com o governo encobrindo a realidade vigente, ou também é censurada por esse. Nesses casos, os cidadãos repórteres fazem o trabalho da imprensa ao denunciarem as opressões sofridas por meio de blogues e no compartilhamento de informações via imagem, áudio e texto em tempo real pelas suas redes sociais, na tentativa de ao provocarem comoção em nível mundial, modificarem o status quo daquele país. A partir da análise de conteúdo daquilo que os cidadãos repórteres publicaram em blogues e redes sociais, foi possível compreender não só a problemática vivenciada por esses sujeitos, mas um redimensionamento do “outro” antes apenas imaginado ou simplesmente esquecido, e da própria realidade desse país. Assim, ao mesmo tempo em que a Internet possibilita a racionalização dos oprimidos pela cobertura dos cidadãos repórteres, ela reproduz as relações de poder daqueles que podem ter acesso e voz a esse meio, uma vez que só quem faz uso pleno da Internet é ainda aquele que possui mais renda, maior educação e capital informacional.

Wikileaks e Mega Não: Algumas reflexões

Posted in Uncategorized by Carine Roos on dezembro 15, 2010

A grande contribuição do Wikileaks trazendo para a realidade local brasileira é pensar o que trazemos de lição ao ler os memorandos dos EUA. A intenção do Wikileaks parece clara, desmoralizar e deixar em situação vexatória o governo norte americano e a diplomacia norte americana. Há uma política escusa que utiliza-se de mecanismos pouco democráticos para fazer valer sua hegemonia política. Essa política é privilegio dos EUA? Podemos olhar no passado recente e no “instante-já”, como diria Clarisse Lispector, exemplos dessa política? O que fazemos da Internet?
A política é uma câmara escura, em sua grande maioria, não temos acesso nem a formação das decisões políticas ou tomadas de decisão, temos acesso apenas ao produto final. É preciso criar transparência na política, como fomentar essas tomadas de decisão que apenas grupos políticos ditam os rumos da sociedade. Nesse aspecto, a discussão sobre o Marco Civil da Internet foi um avanço, que contou com a colaboração da sociedade civil para delimitar um marco regulatório na Internet dando voz aos cidadãos a partir de debates e interações via plataforma. Outros projetos que trazem a participação da sociedade civil na política também surgiram, mas ainda não é suficiente, precisamos avançar ainda mais.
Portanto, há uma realidade política que ela é ainda inacessível, então como visibilizar isso aproveitando o ensejo do Wikileaks? A necessidade de desvendar as entrelinhas da politica perpassa em ter acesso a documentos e políticas hoje pouco acessíveis. Porque não aproveitamos o  momento político do Wikileaks e não pressionamos a abertura dos documentos “sigilosos” no período de repressão da ditadura militar? Uma demanda que foi reprimida e vetada no PNDH-3 por grupos, em sua maioria, conservadores, como militares, ruralistas, igreja católica e a “grande mídia”. Ter acesso a esses documentos é ter acesso aos pormenores da ditadura, ter acesso a nossa história e cultura.
O que está em jogo é o cerceamento da livre informação na rede manifestadas por iniciativas como “Lei Azeredo” e Hadopi. O Wikileaks demonstrou o quanto a Internet pode ser emancipatória e o quanto precisamos reivindicar por ter acesso a documentos que fazem parte da construção da nossa história, o que somos e o que fazemos. A atual conjuntura política com o Wikileaks é propícia para o escancaramento de informações veladas fundamentais.
Aliado a isso, precisamos ver o papel das mídias sociais como de fato um papel de vanguarda, que pressiona e reivindica o acesso a informação e a nossa cultura, o pontapé já foi dado com o Wikileaks, falta agora nossa imposição.

Participem da pesquisa sobre Twitter e eleições para governador do DF

Posted in Uncategorized by Carine Roos on setembro 3, 2010

Pessoal,

Estou fechando a minha segunda graduação em Sociologia na Unb e como Trabalho de Conclusão de Curso estou investigando se a rede social Twitter favorece a ampliação do debate político entre os usuários que interagem nessa rede tendo como foco as eleições para governador do DF. Principalmente quem mora no Distrito Federal, participem da pesquisa acessando aqui: miud.in/bkO Quem mora em outro Estado também pode participar. A pesquisa está sendo coordenada pela professora Sayonara Leal do Departamento de Sociologia da UnB. Caso você se interesse pelo resultado da pesquisa, envio para seu email o resultado final. Por favor, ajudem a divulgá-la também em suas redes sociais.

Para mais informações, mande email para: carine.roos@gmail.com

Alguns apontamentos sobre o livro “YouTube e a Revolução Digital”

Posted in Uncategorized by Carine Roos on janeiro 13, 2010

O livro “YouTube e a Revolução Digital” de Jean Burgess e Joshua Green, editado em 2009, aponta que o YouTube hoje faz parte do cenário da mídia de massa. Em novembro de 2007, já era o site mais popular do Reino Unido, com o site da BBC ficando em segundo lugar. Os autores garantem que o sucesso da rede social foi a combinação da popularidade em grande escala de determinados vídeos criados por usuários e o emprego do YouTube como meio de distribuição do conteúdo das empresas de mídia que agradou ao público, “Para o YouTube, a cultura participativa não é somente um artifício ou um adereço secundário; é, sem dúvida, seu principal negócio”.

O livro é produto de uma pesquisa realizada por esses dois autores, cuja metodologia foi a leitura atenta de estudos sobre mídia e cultura a um levantamento de 4320 vídeos analisados e classificados como “Mais Populares” do site, reunidos entre agosto e novembro de 2007. O estudo demonstra que o YouTube não representa uma colisão e sim uma coevolução aliada à uma coexistência desconfortável entre “antigas” e “novas” aplicações, formas e práticas de mídia, isto é, quando aceito pela grande mídia, ainda o é de maneira relutante.

Crucial é a perspectiva desses pesquisadores quando ao relatarem o fato de o YouTube ser classificado repetidamente pela grande mídia como site amador “aberto a todos” e não como um local de convívio comunitário ou de experimentação artística esses veículos acabam por disseminar o discurso de que a ferramenta contribui para a crise do conhecimento, o colapso dos valores culturais e de que o YouTube é uma “terra sem lei”. Esse discursos bastante prejudiciais à cultura participativa ajudam a materializar preocupações com a pirataria e a “ciberintimidação” elevando a juventude como categoria de risco.

O estudo sugere que os discursos da mídia sobre as questões de moralidade no YouTube, a criação da categoria de “ciberintimidação” podem ser vistos como sintomas do desconforto e incerteza que cercam o campo de atuação da mídia provocadas pelo uso das novas tecnologias como as câmeras de telefones celulares e a Internet alavancando uma mudança de paradigma na comunicação. O discurso do pânico moral faz parte hoje do vocabulário profissional dos jornalistas. O livro ressalta ainda que a discussão em vez de centrar na interpretação das novas mídias como uma articulação de risco, imoralidade e juventude deveria centrar a entender de maneira mais produtiva o alcance e as circunstâncias nas quais a participação em sites como o YouTube envolvem reflexão, consciência ética e capacidade de avaliação como parte de discussões mais abrangentes sobre a alfabetização em novas mídias. “A mídia de massa lida com esse problema do mesmo modo de sempre, filtrando os usos e significados do YouTube por meio de seus próprios valores jornalísticos, bem como de uma abordagem ideológica da mídia popular e emergente que se recusa a admitir que os usos vernaculares do YouTube podem ter suas próprias maneiras de legitimidade”.

Uma reflexão interessante que o livro coloca é que encarar o YouTube e seus elementos apenas como atos de publicação ou distribuição é “impor a percepção da Era da radiofusão sobre a atuação da mídia em relação a um serviço na vanguarda da definição da lógica da mídia Pós-radiofusão.” Em outras palavras, a violação de direitos autorais e pirataria são maneiras como a Era da Radiofusão lida com o que é essencialmente prática da audiência. Portanto, a discussão deve ser permeada pelas práticas culturais de rede e de sua própria lógica, somente assim, fará sentido a discussão sobre pirataria e violação de direitos autorais.

Seguindo mais em frente, o estudo critica a arquitetura e o design do YouTube ressaltando que a plataforma convida mais à participação individual do que à atividade colaborativa. “O YouTube não disponibiliza métodos integrados ou de rotina para captura de vídeos de outros usuários ou sua reutilização, tampouco disponibiliza o conteúdo de outrem com esse propósito”. E questiona se algum momento o YouTube Inc. teve aspirações tão grandes de “mídia comunitária” como parte de sua missão. “O YouTube sempre foi, em primeiro lugar e acima de tudo, um empreendimento comercial, construindo uma audiência para anunciantes ao permitir que usuários individuais compartilhassem vídeos por razões pessoais e para entretenimento”. Mas que, apesar disso, a ferramenta acabou se transformando em um local de oportunidades similares àquelas oferecidas pela mídia comunitária, em função do seu potencial comercial de massa.

Outro ponto do texto fundamental de ser ressaltado é que apesar do YouTube ser um espaço em que indivíduos podem representar suas identidades e perspectivas e a possibilidade de encontrar diferenças culturais, o acesso aos níveis de participação é limitado a determinado segmento da população e realizado de maneira desigual na escala global, já que o site é dominado demograficamente pelos norte-americanos.

O autores acreditam que se o YouTube persistir por um longo tempo, o resultado será não apenas um repositório de conteúdos de vídeos antigos, mas um registro da cultura popular contemporânea global. “O YouTube está evoluindo para se tornar um imenso arquivo público, heterogêneo e, em grande parte, acidental e desorganizado”.

Os pesquisadores finalizam destacando que o momento atual do YouTube é a incerteza que permeia o futuro da cultura participativa e a complexidade que emerge da intersecção de várias ideias mutáveis e divergentes sobre o para que serve a mídia digital, ou para que poderia servir. Sem dúvida é um trabalho primoroso desses dois autores, que lançam novos olhares sobre a cultura participativa em rede e contribuem desmistificando dúvidas e inquietações desse ambiente ainda tão pouco explorado pelo seu potencial gigantesco que é a Internet.

Mídias sociais para estudantes de jornalismo

Posted in Uncategorized by Carine Roos on agosto 5, 2009

A convite da professora Mônica Prado, que foi minha orientadora da pesquisa de graduação, dei uma aula informal sobre mídias sociais para os alunos do sexto semestre de Jornalismo Contemporâneo do Uniceub. Achei a iniciativa bem legal e uma oportunidade de falar de um tema que gosto bastante e o melhor, para futuros jornalistas.

Comecei falando que a estrutura em rede do ciberespaço permite a possibilidade de qualquer pessoa ser produtora de notícias. Não mais no esquema um –>todos como acontece nas mídias convencionais, mas num esquema que também pode ser um –> todos, mas também todos <-> todos, todos <– um, e até mesmo um<-> um. O fato é que com a liberação do pólo emissor, os jornalistas não possuem mais o controle da informação, muito menos do processo de produção da notícia. É isso que faz a internet ser tão fascinante e ao mesmo tempo tão desafiadora para os profissionais de comunicação.

Sob os olhos atentos daquela gurizada, falei o que eram as mídias sociais e suas várias plataformas que permitem a participação e interação do cidadão na rede, a diferenciação entre jornalismo colaborativo – quando o cidadão participa de maneira limitada do processo de produção da notícia, apenas comentando, enviando fotos, sugestões, críticas às matérias – e de jornalismo participativo – quando o cidadão participa de todas as etapas do processo de produção da notícia, desde a busca de pautas, apuração, escrita e divulgação.

Toquei também na importância de olhar a internet como uma ferramenta de trabalho do jornalista, ou seja, utilizar ela a seu favor, e não vê-la como concorrente ou inimiga. Trouxe exemplos como o do jornal americano New York Times que várias vezes já citou e divulgou matérias do Global Voices, um observatório de blogues internacionais feito por cidadãos de vários países. Da mesma forma, mencionei que os sites de notícias El Clarín e o El País permitem a qualquer cidadão criar blogues pelas suas próprias páginas na internet.

Comentei sobre a relevância de igualar os blogueiros no mesmo status que os jornalistas, no sentido de divulgar notícias, e que muitas vezes escrevem com maior competência que os próprios profissionais formados. Mencionei sobre a importância do twitter hoje não só para informar, mas também para divulgar informações a partir do “seguimento” de pessoas que trazem informações contundentes e que atuam nas redes.

Expliquei sobre a importância da contra-informação gerada pelo ciberespaço por colaboradores e cidadãos noticiando a situação de Honduras e a violação dos direitos humanos após a censura dos meios de comunicação nesse país e a deposição do presidente, Manuel Zelaya, por um golpe de Estado.

Frisei o cuidado e a responsabilidade hoje, mais do que nunca, em divulgar informações já que elas podem ser desmentidas, criticadas, questionadas de imediato por qualquer cidadão em seu blog ou mídia social.

Se a rapazeada vai passar a escrever num blog ou abrir uma conta no twitter, isso eu já não sei. Mas o recado foi dado, e a lição foi apreendida, uma vez que o retorno dos comentários foram surpreendentes.

O cidadão pede participação na notícia e a Agência Brasil nega

Posted in Uncategorized by Carine Roos on agosto 1, 2009

Após toda a discussão gerada pelo meu TCC, “As percepções dos jornalistas da EBC sobre mídias sociais”, e com o post de 21 julho “Resposta ao editor-executivo sobre minha pesquisa” e uma parte da reprodução desse debate no blog Trezentos com o post “EBC, Agência Brasil e Mídias Socias: verdades e mentiras”, agora a declaração parte de Paulo Machado, ouvidor adjunto da EBC, sobre a falta de participação do cidadão com a notícia na Agência Brasil. Paulo Machado alerta que recebe várias reivindicações de leitores pedindo maior participação nesse veículo, ao menos pela via do comentário. O ouvidor da EBC também relata que não houve avanços das ferramentas tecnológicas na ABr para que a participação do cidadão com a notícia se efetivasse e os motivos seriam estruturais e editoriais, assim como, a Abr editorialmente tem reagido às mensagens que chegam pelo ouvidor “como se ao leitor coubesse apenas receber a informação pronta e acabada, pos parecem que as sugestões nunca surtem efeitos práticos” . Segue o texto, na íntegra, feito por Paulo Machado em sua coluna.

JORNALISMO E A PARTICIPAÇÃO DO CIDADÃO

31 de Julho de 2009 – 11h21

Paulo Machado
Ouvidor Adjunto da EBC

Brasília – Muitos leitores têm escrito para a Ouvidoria reivindicando novas formas de acesso aos conteúdos da Agência Brasil ou ainda espaço para que possam publicar seus comentários e opiniões sobre os assuntos tratados nas matérias. A acessibilidade para pessoas com diferentes tipos de deficiência também tem sido objeto das mensagens.

No canto superior esquerdo desta Coluna há um símbolo, por meio do qual o leitor pode acessar um formulário e enviar seu comentário com críticas e sugestões sobre o presente conteúdo. Experimente. Esse mecanismo de interatividade foi criado em 2006 quando inaugurado o novo site da ABr. O símbolo também leva o leitor a saber quais são as ferramentas previstas para interagir com o site e como utilizá-las, por exemplo, para publicar notícias, fotos, vídeos e áudios em sua página pessoal, além de conhecer alguns dos princípios da comunicação pública.

Naquela oportunidade, ao licenciar o novo site em Creative Comuns (*), os gestores da ABr davam os primeiros passos para a prática do jornalismo colaborativo que, com o tempo, poderia se transformar em jornalismo participativo. De lá para cá, as ferramentas tecnológicas evoluíram muito, mas essa evolução não foi acompanhada pela Agência Brasil e a interatividade e a participação do cidadão não avançaram. Questões estruturais e editoriais, mantiveram os leitores como meros receptores da notícia fazendo a comunicação de mão única nos moldes praticados pela mídia convencional.

A novidade em termos de canais de participação do cidadão foi a implantação desta Ouvidoria que desde 2007 constitui-se em uma possibilidade real de que a comunicação faça o caminho inverso, levando a opinião do leitor à redação. Mas os efeitos práticos dessa participação dependem basicamente da boa vontade do gestor de plantão. Alguns jornalistas são refratários às críticas dos leitores e não abrem mão de seu poder de decidir sobre a verdade. Outros já perceberam o quanto esse retorno é importante para saber como o leitor recebe a informação. Mas ainda estamos longe do jornalismo participativo nas páginas da ABr.

O leitor Jairo de Albuquerque foi um dos muitos que escreveram para a Ouvidoria procurando uma forma de manifestar suas opiniões sobre os conteúdos veiculados nas matérias da Agência Brasil.

Comentando duas notícias que tratavam da Marcha dos Prefeitos à Brasília o leitor fez uma análise do Sistema Tributário Nacional, sugeriu a convocação de uma assembleia constituinte para rediscutir o papel do município na Federação e falou até das responsabilidades do município na formulação e execução das políticas públicas. Se fosse publicada em um espaço apropriado, a mensagem do leitor daria margem a uma importante discussão sobre o tema, principalmente se o referido espaço permitisse que outros leitores contribuíssem com suas opiniões e informações. Seria uma forma da ABr se constituir literalmente em espaço público que abrigasse o debate democrático sobre as questões de interesse nacional.

Sobre os comentários do leitor a Agência Brasil respondeu: “É a opinião do leitor. Não creio que seja necessária alguma resposta.”

Outro exemplo de leitor que gostaria de manifestar sua opinião foi dado por Jackson Emanuel que escreveu: “Gostaria do direito de resposta à notícia recentemente publicada sobre as 50 ações do governo que visam favorecer a comunidade LGBT. Segue um artigo em anexo, se for possível publicar ficarei grato.” Em seu artigo Jakson defende pontos de vista contrários às ações do governo. A Ouvidoria explicou a ele não se tratar de direito de resposta como solicitou, pois não foi citado nas matérias, mas sim do direito a opinar sobre políticas públicas e portanto contribuir para o debate e a formação da opinião do público. Mas a ABr não tem espaço para esse tipo de participação do leitor.

Por ultimo lembramos das dezenas de mensagens de leitores que recebemos com sugestões de pautas, abordagens e enfoques, alem de indicações de possíveis fontes para serem ouvidas nas matérias. São leitores querendo ajudar a fazer o jornalismo cidadão, participar da elaboração da notícia e, quem sabe, até fazer a reportagem sobre um determinado assunto. Essas mensagens são encaminhadas pela Ouvidoria para a Agência Brasil e a resposta é sempre a mesma: “agradecemos a participação do leitor”, ou eventualmente, “vamos levar em consideração suas observações”. A ABr, além de não ter ferramentas tecnológicas que permitam a interação com o cidadão, editorialmente tem reagido a essas mensagens como se ao leitor coubesse apenas receber a informação pronta e acabada, pois parece que as sugestões nunca surtem efeitos práticos.

Essas mensagens também podem ser lidas e interpretadas como uma fotografia de um momento histórico da democracia e da comunicação onde o novo olhar do jornalismo cidadão reivindica transformações – afinal, qual seria o espaço mais legítimo para se afirmar do que na empresa pública de comunicação que tem entre seus objetivos o de inovar e experimentar novas formas de jornalismo e de comunicação?

Como dissemos, na mídia convencional a relação entre emissor e receptor é uma via de mão única, ou seja, a emissão da notícia é feita apenas pelos jornalistas, e a audiência, somente recebe a informação, não sendo portanto, produtor dela. Os jornalistas das mídias convencionais compartilham uma cultura da profissão: seguir critérios de noticiabilidade e dos valores-notícia, assim como crenças e percepções próprias dessa comunidade. Na agência pública, até o momento, não observamos diferenças nesses critérios e crenças.

Contrapondo-se às práticas liberais do jornalismo convencional, insurge-se no final do século passado a noção de jornalismo cidadão(**) que parte do conceito de que todos somos potencialmente produtores de informação, desde que disponhamos dos meios para apurarmos um fato, tratá-lo adequadamente e publica-lo. Com a revolução tecnológica em curso os meios se diversificam e tornam-se efetivamente disponíveis para mais e mais pessoas a cada dia. A sua propriedade se democratiza à revelia dos poderosos donos dos veículos de comunicação de massa que detinham o monopólio da informação.

Democracia e comunicação reforçam e reformulam seus vínculos e suas práticas. Mais pessoas votam, mais se tornam consumidores, a consciência crítica se amplia e mais gente quer participar das decisões, inclusive da decisão sobre o que é verdade. Para participar as pessoas se organizam e com isso seus argumentos em favor de interesses comuns ou coletivos ganham força e faz-se ouvir sua voz.

A verdade passa a ser uma construção coletiva, negociada e relativa a determinadas parcelas da sociedade ou a determinados grupos de interesse. A verdade passa a ser algo tão relativo e complexo que já nem vale a pena procurá-la como algo pronto, acabado, quase divino – entre a verdade absoluta e a relativa há tantas outras verdades quantos são os grupos de interesse. São as visões de mundo que se diversificam e ganham espaço na medida em que já não se pode impor uma verdade unívoca. Ao jornalismo vale mais a pena descrever o processo, a busca de consensos e dissensos. Ao jornalista cabe o papel de alinhavá-los, mostrando a realidade de uma sociedade em franco processo de democratização das decisões e da comunicação.

Por trás da disputa entre o jornalismo convencional e o participativo, está a questão do poder – o poder de construir a verdade e dizê-la ao público por meio de um veículo de massas, ou seja, o poder da comunicação convencional. Mas a tecnologia ao modernizar os meios, chamados agora de plataformas digitais, também democratizou o acesso a eles. Portanto, a cada dia mais e mais pessoas detêm o poder de construir a verdade e expor sua visão pessoal de um determinado fato. Do ponto de vista pessoal, há jornalistas que encaram essa subversão como uma séria ameaça ao poder que exercem – e, verdadeiramente, o é. Do ponto de vista do modelo de negócios das empresas de comunicação abre-se espaço para que se democratize a sua propriedade – hoje em dia há blogs pessoais mais acessados do que muitas agências de notícias. Isso significa basicamente que os negócios, que sobrevivem do lucro da venda do conhecimento, da cultura e da informação, podem estar com os dias contados – a propriedade privada desses bens da humanidade sobreviverá à democracia e à revolução tecnológica? Começamos efetivamente a questionar a quem pertence a informação e o papel do jornalista frente a ela.

Os entraves para adoção do vale-cultura

Posted in Uncategorized by Carine Roos on julho 25, 2009

É inegável que o projeto de lei que cria o vale-cultura para a população poderá trazer benefícios no que tange ao acesso dos cidadãos aos bens culturais desse país. De acordo com estatísticas do IBGE de 2006, apenas 14% da população brasileira vão mensalmente aos cinemas, 96% não frequentam museus, 93% nunca foram a uma exposição de arte e 78% nunca assistiram a um espetáculo de dança. Essa realidade poderá trazer mudanças significativas no plano simbólico da construção das identidades dos sujeitos, uma vez que, conforme Pierre Bourdieu aludiu em “A Distinção”, essa construção é determinada e determinante pelas condições materiais e simbólicas aos quais os sujeitos estão inseridos em suas classes estruturais. Aquilo que é considerado como “gosto de luxo”, ou seja, ir à teatros, museus, exposições; facilidades garantidas a quem tem posse de um capital, agora poderá a ser consumido por quem não tem acesso a esses bens.

O projeto de lei que tramita na Câmara dos Deputados em caráter de “urgência urgentíssima”, e depois segue ao senado em até 45 dias, tem como meta possibilitar o acesso e a fruição dos produtos e serviços culturais à classe trabalhadora, assim como estimular a visitação a estabelecimentos culturais e espetáculos artísticos. As empresas que declaram imposto de renda com base no lucro real poderão aderir ao vale-cultura e disponibilizar até R$ 50,00 por funcionário, ao mês, com direito a deduzir até 1% do imposto de renda devido. E aqueles trabalhadores que ganham até cinco salários mínimos terão de ajudar com cinco reais para obter o vale. Já os trabalhadores que ganharem mais de cinco salários mínimos poderão receber o cartão com a condição que todos os empregados com salários inferiores já tenham aderido ao benefício, e o desconto para estes irá variar entre 20% a 90%.

Apesar de a iniciativa ser valiosa, e nunca ter sido cogitada por nenhum governo antes, ela somente conseguirá ser satisfeita se os donos das empresas e as instituições aderirem à política do vale-cultura. Assim como, a classe artística, sindicatos e sociedade como um todo estimularem as empresas e os cidadãos a participarem dessa inclusão social pelo acesso à cultura. A pergunta que fica é: Será que todos querem ver o cidadão mais crítico e conscientizado? Será que a sociedade brasileira é organizada o suficiente para que leve a promoção dessa cidadania adiante? Não seria mais interessante que o governo, que tem competência para isso, oferecesse canais de participação direta da população como em rádios e TVs, já que cabe a ele o direito de conceder a utilização desse bem que é público e independe de intermediários para viabilizar esse acesso ao cidadão? Será que não cairemos, novamente, numa relação paternalista em que o cidadão depende do vale para poder consumir cultura? Ficam aí as minhas inquietações ao pensar nos entraves para a adoção da política do vale-cultura.

Resposta ao editor executivo da Agência Brasil sobre minha pesquisa

Posted in Uncategorized by Carine Roos on julho 21, 2009

Ontem a tarde, por meio da minha orientadora, Monica Prado, recebi questionamentos do editor executivo da Agência Brasil, Enio Vieira, sobre a minha pesquisa, “As percepções dos jornalistas da EBC sobre mídias sociais”. Como ela está pública na internet, resolvi publicizar os questionamentos levantados por ele com as minhas respostas.
Boa tarde,
Sou editor-executivo da Agência Brasil, ligada a EBC, e tive acesso ao trabalho de Carine Roos. Também fui professor de Jornalismo Econômico no Uniceub, em 2006, e nos conhecemos naquela época.
Gostaria de fazer algumas observações em vista de afirmações feitas pela estudante:

1) A empresa tem algo como 300 jornalistas. Mas foram entrevistados apenas 14, segundo critérios não esclarecidos pela pesquisa. Foi entrevistado o editor-chefe da TV Brasil, mas não foram o editor-chefe ou um dos dois editores-executivos da Agência Brasil. Portanto, a estudante não falou com pessoas responsáveis pela formulação direta de estratégias da Agência.

A pesquisa “As percepções dos jornalistas da EBC” se refere aos jornalistas entrevistados de três veículos: Agência Brasil, TV Brasil e Rádio Nacional Amazônia, dado que foi apresentado várias vezes durante todo o estudo. Portanto, a intenção nunca foi entrevistar todos os jornalistas, mas sim, uma amostra que  pudesse identificar o pensamento dos jornalistas desses veículos. Assim como,  as entrevistas foram feitas conforme a proporcionalidade dos entrevistados da Rádio, Agência e TV. O método e a técnica utilizada foram extensivamente demonstrados e detalhados. Da mesma forma, os conceitos empregados para a interpretação dos dados foi amplamente discutido. A pesquisa foi baseada nos conceitos de Bourdieu de “campo jornalístico” e “habitus”, e a relevância desses conceitos para a comunicação é incontestável. Portanto, utilizei sim critérios na metodologia e le pode ser visto no capítulo “Descrição da Metodologia”. Por fim, Enio  afirma que entrevistei o editor-chefe da TV Brasil e não o editor-chefe e os editores-executivos da Agência Brasil e que também não falei com as pessoas responsáveis pelas estratégias da Agência Brasil. O Eduardo Castro além de ser o chefe da TV Brasil é gerente-executivo de jornalismo da EBC, portanto, alguém com autoridade suficiente para falar da condução de jornalismo da EBC assim como da Agência Brasil.

2)Eu particularmente participo há um ano de discussões de área tecnológica na EBC e sequer sabia desta pesquisa. Ou seja, ela não falou com a pessoa que mais acompanha o tema na Agência Brasil.

Não sabia que o Enio participava há um ano das discussões sobre tecnologia na EBC, encontros esses que não possuem atas e não são públicos para que os cidadãos acompanhem o andamento e o futuro do jornalismo na empresa, fato relevante para a sociedade e objeto da criação da EBC. De qualquer maneira, não era o objetivo e nem o foco da pesquisa.

3)A pesquisa tampouco levou em consideração o estágio tecnológico da EBC. Não se pode pensar que uma agência com 40 mil visitantes diários exija a mesma tecnologia de um blog que tem 100 acessos dia. Há questões operacionais e de gestão que permitem ou não ter uma interatividade com um público grande. Ter jornalismo participativo exige uma plataforma tecnológica de alto custo (sobretudo vídeo e áudio) que ainda está sendo implantada na EBC.

A pesquisa não levou em consideração o aspecto tecnológico da EBC porque não é o seu foco. E a mesma tecnologia de um blogue pode sim ser utlizada em uma página com 40 mil acessos diários como da Agência Brasil, conforme o exemplo de blogues como o Vi o Mundo, do Luiz Carlos Azenha e Conversa Afiada, do Paulo Henrique Amorim. Ambos possuem, em média, de 30 a 35 mil usuários únicos por dia, com ampla publicação de arquivos em áudio e vídeo. Ou seja, os dois blogues juntos possuem quase o dobro de acesso da Agência Brasil. Implementar tecnologia não exige altos custos, vide a utilização ampla que hoje é feita em grandes portais de ferramentas como o WordPress, utilizado pelo IG e Globo.com, e que foi base de dois sites da diretoria de jornalismo da EBC em 2008: China 2008 e Eleições 2008. O próprio blogue do Planalto, pronto para ser divulgado, está sendo desenvolvido em WordPress com 1 designer e 1 programador. Portanto, é preciso investimento em tecnologia certa e ter pessoas na área de TI e de conteúdo com visão para comunicação ágil e participativa na Internet.

4)A EBC herdou uma empresa estatal, a antiga Radiobras, cujo manual de redação de 2006 não inclui jornalismo participativo, nem textos opinativos. Os cidadãos do quadro “Outro olhar” na TV Brasil são jornalistas que fazem trabalhos pessoais, produtores de vídeo de ONGs e estudantes de jornalismo. Não se trata-se, portanto, de cidadãos comuns produzindo material jornalístico.

Mais uma vez repito que o foco da pesquisa era compreender a percepção dos jornalistas da Agência Brasil, TV Brasil e da Rádio Nacional Amazônia, apesar disso, é função de uma empresa pública conceber espaço para o cidadão atuar independentemente da data de publicação do tal manual. Quem produz e edita o quadro “Outro Olhar” é um jornalista, mas o conteúdo veiculado pelo quadro é sim realizado pelo cidadão. Isso pode ser verificado vendo o próprio quadro “Outro Olhar” no Repórter Brasil. Além disso, o próprio editor do quadro pode comprovar essa minha afirmação.

5)Há questões de direito autoral que envolvem textos, fotos e vídeos que precisam ser levados em conta ao adotar o modelo de jornalismo participativo. Os defensores do jornalismo cidadão não levam isso em conta e consideram que tudo é “creative commons”. Um material plagiado e falsificado teria implicações desastrosas para uma empresa como a EBC. O trabalho da Carine não toca nesse tema.

Realmente o meu trabalho não toca nesse assunto porque todo o conteúdo veiculado pelo cidadão pode ser considerado como copyleft, nesse caso, “creative commons”. Essa premissa é a base do jornalismo participativo e a própria empresa de comunicação deve estimular o cidadão para criar o seu próprio conteúdo já em “creative commons.”

6)A autora tampouco incluiu as restrições que se fazem ao jornalismo na era de internet, como, por exemplo, podemos ver no úlltimo livro de Caio Túlio Costa. O SMS que serve para mobilizar cidadão são o mesmo que permitem a mobilização dos ataques do PCC em São Paulo em 2005. Ou o livro “O culto do amador”, de Andrew Keen.

A base da pesquisa não está calcada no raciocínio do jornalismo conservador conforme o editor executivo cita como exemplo o livro do jornalista Caio Tulio Costa. Não se pode condenar uma ferramenta como o SMS porque algumas pessoas a utilizam de forma indevida. Sequer o SMS foi citado pois sua construção não permite o jornalismo participativo, uma vez que seu formato, se comparado aos veículos de comunicação convencionais, é o broadcasting, em que a comunicação é   realizada por uma via de mão única. O SMS não é mídia social conforme conceituado na minha pesquisa, já que esta se caracteriza  pela construção coletiva da informação entre emissor e receptor, e que por isso, são igualados em status. Minha pesquisa foi fundamentada em autores sérios, como Dan Gilmour, Pierre Levy, Castells, Ana Maria Brambilla, Marcelo Träsel,  entre vários outros. E retificando, os ataques do PCC foram em 2006 e não em 2005.